segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Anima




A literatura sempre teve o supremo poder de expressar a alma em suas metáforas. Não é à toa que as tragédias e glórias humanas aparecerem tantas vezes retratadas na vida de personagens literários. O que dizer então dessa imagem do feminino, a que Jung deu o nome de Anima?

“Afinal de contas... a vida dos homens sempre gira em torno de uma só mulher: essa em que se resumem todas as mulheres do mundo, vértice de todos os mistérios e chave de todas as respostas. Essa que maneja o silêncio como ninguém, talvez porque seja esta uma linguagem que fala à perfeição. Essa que possui a lucidez sábia de manhãs luminosas, entardeceres vermelhos e mares azul cobalto, temperada de estoicismo, tristeza infinita e cansaço, para quem uma só existência não basta. Era preciso, além disso, ser fêmea, ser mulher, para olhar com semelhante mistura de tédio, sabedoria e cansaço. Para ter esta capacidade de penetração aguda como uma lâmina de aço, impossível de aprender ou imitar, nascida de uma longa memória genérica de vidas inúmeras, viajando como butim no porão de naus côncavas e negras, com as coxas ensangüentadas entre ruínas fumegantes e cadáveres, tecendo e desmanchando tapetes durante inúmeros invernos, parindo homens para novas Tróias e aguardando o retorno de heróis exaustos; de deuses com pés de barro a quem às vezes amava, volta e meia temia e quase sempre, mais cedo ou mais tarde, desprezava.”

A Carta Esférica, Arturo Perez-Reverte

2 comentários:

  1. Como bem diz Gilberto Gil, para ser um Super-Homem é preciso reconhecer e valorizar a mulher interior.

    E viver uma vida com outros olhos, com mais cor.

    Agora eu pergunto. Como um junguiano lida consigo mesmo quando se apaixona? É possível evitar o apaixonamento?

    É possível separar logo a mulher real exterior da anima interior? Ou só com o tempo?

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