
O bom e velho Jung costumava dizer que as melhores conversas que tinha tido tinham sido com pessoas comuns e não com grandes acadêmicos e doutores. Pois é meu caro amigo, definitivamente nada é mais interessante do que nós mesmos. Afinal de contas, há algo mais delicioso e surpreendente ( e também difícil, confesso ) do que escutar alguém? Não os grandes discursos, planejados e muito antes revisados, mas sim nossas pequenas conversas, nas quais encontramos da genialidade à estultície, do cinismo ao melodrama, da genuína emotividade ao teatro histriônico.
De forma ou de outra o despropósito dos encontros casuais pode nos brindar com pérolas que espelham a alma humana.
Pois eis que por esses dias, despretensiosamente aguardando o início de uma aula ouvi em uma conversa, que se iniciava já com certos ares de polêmica, um argumento curioso que dava conta do fato de quanto as pessoas fazem sacrifícios para obter uma imagem ideal. E o assunto correu para as exigências do mercado, para essas mulheres photoshop nas capas de revista. Aliás, a melhor definição que já vi sobre essas mulheres maravilhosas e inexistentes foi que elas eram como o monte Everest: você sabe que existe, mas daí a você ver de perto!!!. O certo é que com o papo continuando e a polêmica aumentando para o assunto desemborcar em troca de receitas e idéias sobre dietas e emagrecimentos foi um pulo.
De repente estava lá. Era o fantasma do arquétipo excitando as mentes do grupo. Todos tomados repentinamente por uma imagem. Literalmente por uma imagem, se é que isso é possível.
A impressão que tomou conta de mim foi: que falta de senso estético. De repente percebi que não se come mais nada por prazer, pelo próprio pecado da gula. Mutilamos os sete pecados. Tudo agora entope artérias, causa diabetes, provoca câncer. Nossos grandes inimigos hoje são a carne mal passada, o açúcar e a gordura saturada. Que decadência para quem já lutou contra ditaduras, moral, religião, etc.
Já pensou se Eva tivesse comido a maçã movida não pela tentação, mas por suas propriedades terapêuticas? Imaginem a cobra dizendo: “Como, coma, sua pele vai ficar mais lisa e saudável; seus dentes vão ficar limpos, deixa um hálito bom”. Onde estaríamos???????
As coisas estão animadas, ganharam o poder de nos matar. Sentamos à mesa à frente de um bom filé mal passado como se sentássemos em frente a um inimigo. Um ser vivo que espera passivamente ser destroçado por facas, garfos e dentes, mas já sabendo de antemão e deliciando-se em sua presciência, que sua vingança está garantida. Gargalhando histericamente rumo ao estômago pronto a espalhar suas calorias e gorduras, tramando em atrapalhar a digestão, quem sabe provocar um pesadelo mais tarde. Quem sabe até...
Ao invés do célebre dilema edipiano frente à Esfinge, que ordenava “Decifra-me ou te devoro”, temos agora: “Devora-me e te entupirei as artérias”.
Hoje somo doutrinados a comer só o que é saudável, o que tem ômega 3, o que é desnatado, descafeinado, dietético, light, e, pelo jeito que as coisas vão, sem gosto. Por que afinal de contas se for muito gostoso você pode querer comer de novo e como já sabemos: tudo demais faz mal.
Pense nisso e não se espante quando você se descobrir estoicamente agarrado a uma barrinha de cereal.