
A figura do trickster é marcada por duplicidades. Meio deus, meio animal; às vezes engraçado, outras malévolo; às vezes inocente e tolo, ora misterioso e sombrio. Mas de suas qualidades uma me parece deveras interessante, sua propensão a subverter a ordem, a zombar dos mandamentos. Em sua cruzada mítica transforma até mesmo as mais tradicionais convenções em brincadeiras e zombarias.
Podemos reconhecer figuras tricksterianas ao longo de várias culturas nas figuras ancestrais do bobo, do tolo, do estulto, a rir muitas vezes da própria desgraça, senão da desgraça do outro. Quem não lembra de Bafo de Bode, em Roque Santeiro, eternamente bêbado em um banco de praça, rejeitado por todos, mas portador da sombra coletiva da pequena cidade, conhecedor dos segredos e intimidades de todos, sempre pronto, com uma língua ácida, a desmascarar os falsos corajosos, os pretensos pudicos, os supostos honestos, em suma, os santinhos e santinhas “ do pau oco”.
Sua imagem liga-se, asssim, à figura do malandro, que desobedece a ordem social, mas é ele mesmo portador do saber que a corrói, mostrando-lhe as falhas, as incongruências. Assim é o trickster, estulto mas também astuto. A quebra da ordem que ele promove não é meramente sombria, não conduz somente a um caos, mas sim a uma nova ordem, vindo esta somente no rastro das reviravoltas e peripécias de nossa vida. A quebra da ordem tem o supremo poder de nos mostrar que as coisas podem sim ser de outra forma. É a face sedutora, fascinante do caos. Talvez por isso, haja algo de malandro, mercúrio, Mefisto, amante sedutor na figura do tricskster. É a sedução, aquilo que nos leva por outros caminhos, que nos mostra novas possibilidades, que quebra nossas certezas, nos impele a outros valores, nem sempre de forma doce e equilibrada, mas também de forma imperiosa e sofrida.

É essa quebra sedutora da ordem, que nos ameaça em nossa segurança existencial, sempre tão afeita ao equilíbrio e ao descanso, que parece incorporada por Julian Assange. O jornalista e criador do site WikiLeaks tem constantemente revelado informações normalmente mantidas em segredo por governos ao redor do mundo. Seus “vazamentos” sobre execuções extrajudiciais no Quênia lhe garantiu o prêmio Amnesty International Media Award de 2009. Suas mais recentes revelações abalaram a ordem mundial e constrangeram muito governantes ao disponibilizarem documentos secretos envolvendo vários governos do mundo.
No mundo virtual dos computadores e da internet, Assange assusta governantes e empresários revelando uma face das relações de poder entre países e grupos econômicos, que colocam o ganho financeiro e político acima de outros princípios. Desmascara a relação estreita demais de empresas e governos que cada vez mais investem em campanhas milionárias visando eleger determinados candidatos, para que estes a seu tempo tornem-se defensores dos interesses de grupos particulares que patrocinaram sua eleição. Para se ter idéia do poder de suas informações, Assange já revelou fotos, vídeos e documentos que comprovaram crimes de guerra do EUA nas guerras do Iraque e Afeganistão, bem como telegramas trocados entre as embaixadas dos Estados Unidos e China acordando em boicotar decisões não favoráveis às suas economias por parte das conferências sobre o clima global.
Recentemente, Assange foi preso sob a acusação de ter molestado sexualmente duas mulheres na Suécia, o que o tornou um dos criminosos mais procurados pela Interpol. Isso mesmo, meu caro, uma acusação de crime sexual tornou o Sr Assange um dos mais procurados pela Interpol. Bons tempos os da Guerra Fria, em que CIA, FBI, MI6, Stazi,KGB, Interpol e outras só se preocupavam com espiões cheios de truques (ops..) e seus ardilosos planos de dominação mundial. James Bond estaria decepcionado. E o que dizer das Bond Girls..?

Mais deixemos isso de lado. O que me pergunto aqui é sobre as conseqüências dessas revelações. A máscara da política internacional nunca ajustou muito ao rosto dos governantes. Berlusconi e suas inconfidências são uma prova disso. Mas os documentos “vazados” pelo WikiLeaks atingem uma dimensão muito maior que constrangimento e embaraços gerados por fofocas e maledicências. Eles nos mostram o lado oculto da política mundial, muitas vezes inescrupulosa e sem medidas na busca do poder. Eles rasgam o véu de Maya que cobre nossos olhos e nos mostram que por baixo dessa visão dicotômica da realidade sempre pronta a idolatrar heróis e denunciar e combater vilões, muito mais se esconde. Não é só a ordem governamental de alguns países que o WikiLeaks abala, mas nossa própria ordem psíquica, nossa própria ingenuidade pueril, que foi ensinada a confiar num mundo que tende a desaparecer, se é que algum dia existiu, povoado por salvadores da pátria, sempre a postos para a salvar os pobres indefesos, salvaguardando a honra, o moral, as tradições. Uma história velha que se renova a todo instante.
È com certa ironia que vejo a semelhança entre o herói “matrixiano” Neo, despertando as pessoas de seu sono ilusório para que possa ver a realidade (se é que isso também existe) e nosso herói tricksteriano Assange, despertando as pessoas para os bastidores da política mundial.
Assange nos atinge por que muitas vezes nossa relação com a política é passiva. Quantos voltam-se para a política apenas em momentos de eleição ( às vezes nem isso, – veja o alto índice de eleitores que não votaram na eleição presidencial ) ou para saber do mais novo escândalo de corrupção. Ficamos passivos diante dos governantes, entregues às suas decisões, como crianças, filhas do bom pai-Estado. Jung diz em Civilização e Transição que o Estado representa uma coletividade, e quem confia passivamente no Estado, espera em uma coletividade, o que implica em esperar de todos, menos de si. Sua consciência, pré-requisito de sua individuação, não entra no jogo, não assume uma posição frente a si e ao mundo. Creio que, de certa forma, é a essa tomada de consciência que nos convida o Sr. Assange, a nos posicionarmos frente ao mundo, a sairmos de nossa passividade, a colocarmos nossa consciência em jogo.

Mas que sabe o que realmente farão as revelações do WikiLeaks? Talvez caiam no esquecimento com o tempo ou possam provocar pessoas ao redor do mundo, nessa via incontrolável que é a internet, para uma nova percepção da ordem política e econômica mundial.
Talvez essas revelações ainda provoquem embaraços para muitos líderes, políticos, empresários, em muitos lugares. Afinal de contas, dizia Nelson Rodrigues que se todos conhecêssemos as intimidades uns dos outros, não apertaríamos as mãos. Já pensaram como ficaria aquela foto tradicional entre líderes políticos apertando as mãos enquanto inúmeros fotógrafos registram o fato. Constrangedor, embaraçoso???? Talvez não...
Mas fico pensando como seria legal, um dia qualquer encontrar pela rua o fundador do WikiLeaks, cumprimentá-lo, apertar-lhe a mão e ouvi-lo dizer:
“Muito prazer. Assange, Julian Assange.”